Hilárias neuroses

Setembro 5, 2008




O Complexo de Portnoy
Philip Roth
Cia. das Letras (2004)


para dizer o mais óbvio, é um belo texto sobre as terríveis conseqüências do excesso de amor de uma mãe judia. para dizer o mais relevante, são insights finamente irônicos sobre a culpa, o medo da liberdade e a busca de reconhecimento. para dizer o universal, é o onipresente sentimento de dever algo a alguém – dever cumprir expectativas que não são suas, dever corresponder a exigências com as quais não concorda, dever ser perfeito quando você sabe que isto é impossível.


Quando li o post da Marcia no Patifaria (que recomendo com insistência), simplesmente não resisti a curiosidade e imediatamente fiz a encomenda de “O Complexo de Portnoy“. O li também assim, como um impulso, um único sopro de ar. Parece mesmo impossível parar entre os capítulos mal traçados deste… como poderia definir?… deste soco no estômago desenhado por Roth*.

Preciso confessar que não foram tantas as gargalhadas quantas imaginei. Ainda assim foram muitas. O texto simplesmente me acertou em cheio, e o fará com todos de certa forma. Porque é na trivialidade exacerbada que Philip busca sua inspiração, é dos dramas mais cotidianos que surge sua narrativa. Ou monólogo. Não há como, tendo sido filho, não se identificar com algum dos momentos da vida magistralmente narrada de Alex Portnoy, o narrador desesperado.

Mas, talvez, as semelhanças parem por aí. Entre as neuroses da personagem, sua busca por contestação, seu desapego, existe esse contraditório sentimento, uma necessidade inesgotável de pertencimento e aceitação. Uma negação persistente do desejo de ser igual.

A narrativa de Roth é refinada, muito refinada. De uma qualidade literária praticamente impecável, onde o humor é o tempero do reconhecimento. O leitor se compadesse do sofrimento de Portnoy, ri das desventuras e lamúrias do inadequado trintão, e isso porque, de certa forma, se identifica com ele. Enquanto o pequeno imperfeito narra suas ansiedades no divã, nós, os calados psicanalistas cotidianos, temos a oportunidade de nos deleitar com essa impagável receita de bem escrever.



* Philip Roth é um americano de origem judaica. Considerado um dos maiores escritores da segunda metade do século XX, ganhou zilhões de prêmios importantes, entre eles o Pulitzer, National Medal of Arts, a Golden Medal for Fiction… Enfim, a orelha do livro só apresenta a lista de prêmios.






A menina que roubava livros
Markus Zusak
Editora Intrínseca (2007)

Um livro preto, perdido numa imensidão de caos e neve.
Uma menina que enganou a Morte, por três vezes.

E exatamente ela, a Morte, que calmamente assitia a cena, é a escolhida de Zusak* para nos contar essa história. Ao se aperceber do livro abandonado, o apanhou: foi a necessidade de contar a vida dessa criança. A Morte descreveu a história como “uma dentre a pequena legião que carrego, cada qual extraordinária por si só. Cada qual uma tentativa – uma tentativa que é um salto gigantesco – de me provar que você e sua existência humana valem a pena“.

Desde de seu primeiro roubo, a menina, Liesel Meminger, recolhe não só os livros, mas também os semblantes de seus próprios retalhos de vida, que foram ficando pelo caminho.


Ela simplesmente já não se importava.
Durante muito tempo, ficou sentada e viu.
Ela vira seu irmão morrer com um olho aberto, outro ainda no sonho. Dissera adeus à mãe e imaginara sua espera solitária de um trem, de volta para o limbo. Uma mulher de arame tinha-se deitado no chão, com seu grito percorrendo a rua, até cair de lado, como uma moeda rolada que houvesse perdido o impulso. Um rapaz pendera de uma corda feita de neve de Stalingrado. Ela vira um piloto de bombardeiro morrer numa caixa de metal. Vira um homem judeu, que por duas vezes lhe dera as mais belas páginas de sua vida, ser forçado a marchar para um campo de concentração. E, no centro de tudo, viu o Führer berrando suas palavras e passando-as adiante“.


Ao analisar tudo, quando pensava sobre as histórias de Max, como ‘A Semeadora de Palavras’; quando lembrava da bravura de Rudy, lançando-se no frio do rio Amber para resgatar um dos livros da menina; quando vislumbrava a estatura de armário, os xingamentos e o coração monumental da mãe de criação; quando sonhava com o irmão que sempre permaneceu com 6 anos; e, especialmente quando acordava com o consolo do amado pai do acordeão – ao analisar tudo, Liesel não pode pensar em mais nada além do que usou para encerrar a narrativa de sua vida: “Odiei as palavras e as amei, e espero tê-las usado direito“.

Uma menina, um acordeão, um amor, um judeu – e os livros… Uma história. E como diz a ‘orelha do livro’ sobre a narradora, “um dia todos irão conhecê-la. Mas ter a sua história contada por ela é para poucos. Tem que valer a pena“…



____ Leitor Lido!

Segundo nossa querida amiga Marilia, em seu relato sobre as páginas de Zusak, “o livro vale a pena, demais! Ainda lerei-o várias e várias vezes ao longo de minha vida, a não ser, é claro, que a Morte resolva me buscar antes. [...] A sensação que me fica na alma, ao terminar de lê-lo, condiz com a frase final, proferida pela Morte: “Os seres humanos me assombram”. A mim também”.

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Mesmo não sendo uma obra prima da literatura, o quinto romance de Zuzak tem uma poética tocante, envolvendo o leitor nos dramas e sonhos de uma pequena e desaparada personagem que, através do amor aos livros, se aproxima de cada leitor, o tornando quase um cumplice. Narrativa leve, mas obstinada, permeada pelo fantástico ao ter como narradora a figura mítica da Morte, uma morte “imortal”, a deusa que colabora para a ordem do mundo, e que o conhece desde sempre.

E pelo “conhecimento” que a Morte demonstra sobre a alma humana, começamos a nos surpreender com os movimentos mais simples e doces que se desenvolvem no caos. As palavras, em uma história, são capazes de modificar mundos. Capazes de reacender esperanças. Capazes de ensinar que apesar de o universo conspirar contra a humanidade, apesar de, muitas vezes, não conseguirmos perceber nossa humanidade por trás de nossa crueldade, ela está lá. Acesa. Brilhante.


As pessoas só observam as cores do dia no começo e no fim, mas, para mim, está muito claro que o dia se funde através de uma multidão de matizes e entonações, a cada momento que passa. Uma só hora pode consistir em milhares de cores diferentes. Amarelos céreos, azuis borrifados de nuvens. Escuridões enevoadas. No meu ramo de atividade, faço questão de notá-los…”



*Markus Zusak é australiano, filho de mãe alemã e pai austríaco, e cresceu cercado por histórias da época da Guerra. Aos 30 anos é considerado uma revelação na arte do romance, já premiado com o Printz Honor de excelência em literatura jovem. Com o “A menina…” permaneceu 40 semanas no top dos livros mais vendidos do New York Times, tendo chegado ao 1º lugar.