O objetivo, porém, é sempre o mesmo – a Verdade – como se eu tivesse uma única verdade e não muitas, todas à flor da pele e lutando entre si como em um campo de batalha. É verdade que nem todos lêem a minha verdade plural, escrita em linguagem simples, e eu não me sinto obrigado a dizê-la de viva voz, como quem recita uma lição de catecismo; eles que me leiam sem complicações, como se eu fora apenas um homem e não um poço de hieróglifos…
Em “A lua vem da Ásia”
Campos de Carvalho
a testemunha
Novembro 13, 2008
Fatos que povoam o espaço e chegam ao fim quando alguém morre podem maravilhar-nos, mas uma coisa, ou um número infinito de coisas, morre em cada agonia, a não ser que exista uma memória do universo, como conjecturaram os teósofos. No tempo houve um dia que apagou os últimos olhos que viram Cristo; a batalha de Junín e o amor de Helena morreram com a morte de um homem. O que morrerá comigo quando eu morrer, que forma patética ou perecível o mundo perderá?
(a testemunha)
jorge luis borges
Na volta da esquina
Agosto 15, 2008

Na volta da Esquina
Mario Quintana
Editora Globo (1979)
Este livreto é uma de minhas relíquias pessoais. Lançado em 1979, como o quarto volume de uma coletânea chamada Coleção RBS, editada pela Globo, “Na volta da Esquina” reúne poemas e pequenas crônicas do inigualável Mario Quintana*. Nele encontram-se versos como “Conto de Terror”, “O Supremo Castigo” e “Nada”… Vale a pena garimpar sebos atras dele!
O nada é a palavra que mais assusta o comum das gentes. Mas, para exorcizá-lo, ninguém precisa ir aos padres, às mães-pretas, aos índios velhos, ao diabo: basta ir a um dicionário e verá que o nada não existe. Sim, é uma coisa tão absurda como a existência do mundo…” (Nada)
E um dia os homens descobriram que esses discos voadores estavam observando apenas a vida dos insetos…” (Conto de Horror)

* Mario Quintana é um dos maiores poetas brasileiros. Nascido no Rio Grande do Sul em 1906, onde trabalhou, onde escreveu, onde poetou, onde morreu, em 1994. Narrou em versos as coisas como as viu, ou as sentiu, traduziu mestres como Prost, Virginia Wolf e Voltaire, e com eles aprendeu. E de tanto aprender, conheceu melhor a si mesmo, como dizia: “Prefiro citar a opinião dos outros sobre mim. Dizem que sou modesto. Pelo contrário, sou tão orgulhoso que acho que nunca escrevi algo à minha altura. Porque poesia é insatisfação, um anseio de auto-superação. Um poeta satisfeito não satisfaz.” [aqui]


