Dezembro 17, 2008



Sem ter de preocupar-me com os enquadramentos temáticos que cada pergunta específica necessariamente estabeleceria, embora não fosse essa a sua intenção declarada, lanço a primeira palavra, e a segunda, e a terceira, como pássaros a que foi aberta a porta da gaiola, sem saber muito bem, ou não o sabendo de todo, aonde eles me levarão. Falar torna-se então numa aventura, comunicar converte-se na busca metódica de um caminho que leve a quem estiver escutando, tendo sempre presente que nenhuma comunicação é definitiva e instantânea, que muitas vezes é preciso voltar atrás para aclarar o que só sumariamente foi enunciado. Mas o mais interessante em tudo isto é descobrir que o discurso, em lugar de se limitar a iluminar e dar visibilidade ao que eu próprio julgava saber acerca do meu trabalho, acaba invariavelmente por revelar o oculto, o apenas intuído ou pressentido, e que de repente se torna numa evidência insofismável em que sou o primeiro a surpreender-me, como alguém que estava no escuro e acabou de abrir os olhos para uma súbita luz. Enfim, vou aprendendo com as palavras que digo. Eis uma boa conclusão, talvez a melhor, para este discurso. Finalmente breve.


Palavras
em O Caderno de Saramgo
17/dez/2008
José Saramago


A máquina de fazer cometas

Novembro 14, 2008



Um dia um mágico inventou uma máquina de fabricar comentas. Ela se parecia um pouquinho com a máquina de cortar caldo, mas, ao mesmo tempo, era diferente e servia para fazer todas as espécies de cometas à escolha: grandes e pequenos, amarelos ou vermelhos, de cauda simples ou dupla, etc. [...]
Mas ninguém queria a máquina.
O pobre mágico jamais ganhava um centavo sequer e, de tanto pular refeições, era pele e osso. Um dia em que não tinha mais fome do que habitualmente, ele transformou a máquina de fazer cometas em um enorme gorgonzola, que devorou imediatamente.



G. Rovari
Histoires au Téléphone


a testemunha

Novembro 13, 2008



Fatos que povoam o espaço e chegam ao fim quando alguém morre podem maravilhar-nos, mas uma coisa, ou um número infinito de coisas, morre em cada agonia, a não ser que exista uma memória do universo, como conjecturaram os teósofos. No tempo houve um dia que apagou os últimos olhos que viram Cristo; a batalha de Junín e o amor de Helena morreram com a morte de um homem. O que morrerá comigo quando eu morrer, que forma patética ou perecível o mundo perderá?



(a testemunha)
jorge luis borges


Não sou uma só

Julho 16, 2008



O que se conhece hoje do cérebro é que ele funciona através de comunicação e, portanto, através de uma linguagem. Quanto mais as células se comunicam, mais o cérebro vai render. Quando se fala em linguagem, está se falando de um aglomerado de células, empilhadas, formando um tecido.

A sinapse está ligada aos neurônios, só existe na célula nervosa. E o interessante da célula nervosa é que uma não toca na outra. Ela quase toca na outra, quase encosta. A sinapse é a ligação entre duas células que, através de uma gigantesca conversa química, vai reger, literalmente, de 5 a 7 bilhões de células. Uma envia informação e outra recebe, e isso se dá por meio desse quase contato.

Talvez a alma, que o homem procura há milênios, esteja justamente nesse quase toque. E, quem sabe, a sinapse possa explicar os diversos dons artísticos, como compor, pintar, escrever. Além de ser responsável por sentimentos religiosos e místicos. A sinapse é uma coisa bem romântica.



NAO SOU UMA SÓ
Marina W.