Posso contar o que me aconteceu. Ir narrando, dia a dia, como num diário, as coisas que se sucederam. Mas não nesse dia ou nos próximos. A cada novo dia posso contar alguma coisa sobre o dia anterior ao útlimo sobre qual já contei. Diário dos avessos. Posso começar por ontem. E amanhã falarei do ante-ontem. E na semana que vem contarei a semana passada. Diário de história. Diário de memória. Por ser memória, posso mudar as cores do vestido que não usei. Posso colocar música pra embalar a cena que, de estranha, me calou. Posso contar ter visto o céu mais azul, a girafa mais alta, o moinho mais velho, o homem mais sábio, o morro mais plano, a dia mais curto, o medo mais doce, o sonho mais doi-quando-belisca. Posso porque tudo me aconteceu. Ontem e ante-ontem, na semana passada contada semana que vem. Posso romper o silêncio e dizer o que deve ser dito. Posso dizer ao menos o que pode ser dito. Posso ao menos tentar. Quando nada devia ser dito, no ontem. Amanhã já se pode dizer.