Pós SBPJor: primeiras impressões
Novembro 24, 2008
Sempre existe aquele período solitário na pesquisa: dados coletados, é preciso tabelar, classificar, analisar, descrever, cruzar informações, discutí-las. Enfim, o pesquisador isolado é um fato, ao menos em determinado momento do projeto. Talvez essa rotina introspectiva seja ainda mais presente no curto espaço de tempo do Mestrado, já que os prazos são enxugados e há que se dar conta do corpus definido.

Nesses momentos é que eventos como o da SBPJor “vem bem a calhar”, dão fôlego novo ao trabalho. O 6° encontro da Sociedade Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo, que ocorreu na semana passada em São Bernando do Campo/ SP (Univ. Metodista), reunindo a variedade de temas e interesses de pesquisa sob o tema “A Construção do Campo do Jornalismo no Brasil”. Foram mais de 150 trabalhos, entre grupos coordenados e mesas individuais, que proporcionaram debates muito ricos e um novo ânimo pra enfrentar os desafios de final de ano!
Então, nos próximos dias vou criar posts sobre o que mais me chamou a atenção, entre as informações coletadas por lá! Vou comentar alguns painéis e vários trabalhos, ligados ou não a minha pesquisa, que tenham chamado minha atenção!
A primeira postagem é sobre a participação do Prof. Manuel Pinto, da Universidade do Minho (Portugal), que em sua fala no painel da sexta-feira (21/11) falou sobre a emergência de novos modelos de jornalismo na Rede. Para o professor português o jornalismo passa, na Web, por um processo de modificação onde a questão central se volta pra discussão da profissão enquanto centrada em indivíduos ou em comunidades. Também salienta que o jornalismo online vive um momento de crise, que pode ser analisada a partir de conceitos como autonomia X heteronomia e ortodoxia X heterodoxia. A crise, neste sentido, é um processo de (re)conhecimento do próprio campo profissional frente as imposições de uma dupla lógica: a do mercado e a dos impactos tecnológicos.
Estariamos frente a uma mudança de paradigma na profissão jornalística ou apenas de uma mudança interna do próprio campo? Manuel sugere que é preciso desistimular a dicotomia profissional x amador, e elaborar um debate acerca dos níveis de participação a partir da narrativa hipertextual.
Após sua breve fala, tentamos conversar um pouquinho mais com o prof. português. Através da cobertura sobre o evento no Twitter, eu e a Gabi Zago recebemos perguntas que foram encaminhadas para o palestrante, como a que segue, proposta pelo Prof. Alex Primo (UFRGS):
A fala do Prof Manuel me deixou particularmente satisfeita por observar como minha pesquisa parece estar caminhando no mesmo sentido. Mais do que questionar os modelos de jornalismo tradicional ou de ascender ao debate sobre o “jornalismo participativo” ou “jornalismo cidadão”, observar as práticas hipertextuais de participação no jornalismo online pode nos oferecer pistas sobre as mudanças que os sistemas de publicação, as práticas jornalísticas e a própria esfera online podem exercer sobre o campo do jornalismo.
Um dos comentarios mais interessantes feitos pelo Prof. Manuel está na necessidade de expandir a ética da informação para além das fonteiras do profissionalismo jornalístico.
labirintos jornalísticos
Abril 24, 2008
Deixando de lado os “bairrismos” e os discursos desesperados de vários jornalistas contra a (cada vez maior) participação dos ‘leitores’ na produção de conteúdos (nem vamos falar em notícias, especificamente) dos mais variados gêneros: do testemunhal ao especialista; o desenvolvimento das ferramentas de participação da Web são, no mínimo, extremamente inspiradoras…
Não se trata, na verdade, de discutir se informações postadas por internautas não devem ser lidas, ou consideradas perigosas do ponto de vista de veracidade e da objetividade. Se trata de entender que qualquer um agora tem condições físicas de produzir conteúdos (reais ou ficcionais) e publica-los com a mesma eficiência potencial (não vamos esquecer que a Rede importa muitos modelos de poder e reconhecimento do universo offline) de qualquer outro indivíduo conectado, não importando em nada, nesse sentido, se ele faz parte de um grupo institucionalizado e academicamente padronizado para produzir tal e tal conteúdos – sejam eles relatos da realidade cotidiana ou peças literárias.
Um texto de Luiz Weis, “A jovem mídia e os mamutes de papel“, publicado ontem na versão online do Estadão, fala da dinâmica jornalismo x participação apontando como problema exatamente a questão do “apurar” jornalístico: das técnicas e regras deontológicas da profissão.
A consigna um tanto pedante disso é “criar uma narrativa capaz de se contrapor ao discurso da mídia convencional” – presumivelmente monolítica na maneira de abordar o mundo, ainda que não ao traduzi-lo. A pergunta óbvia, de todo modo, é se querer é saber. Como apurar, comprovar e interpretar eventos distantes do âmbito dos conhecimentos e da experiência imediata de cada um? E esse, afinal, é o miolo de toda “narrativa” jornalística.
Seu mérito é trazer a discussão pra um nível bem mais elevado do que a grande parte dos jornalistas que se propuseram, até aqui, a tocar no assunto.
A diferença entre o jornalista profissional e o jornalista-cidadão – ou, por outra, entre as formulações de Lippmann e de Dewey – é que aquele foi treinado para observar, conferir, relatar e buscar explicações para os fatos. (…) Além disso, a imprensa de qualidade de há muito adotou procedimentos de certificação de seu material, simplesmente fora do alcance do mais íntegro blogueiro individual. E, se mesmo assim, os jornais erram – e como erram! -, imagine-se a alternativa.
O tema não é simples, com certeza. A popularização da produção de conteúdos não evidencia apenas ótimos conteúdos, verdadeiros e “bem apurados”. Ainda assim, evidencia visões, diferentes ou múltiplas visões para a narrativa de um cotidiano comum.
A participação não precisa, nem deve, ser o fim do jornalismo. Essa alternativa nem deveria ser alimentada. Ainda assim, ela é recurso definitivo, lançado ao profissional da comunicação que, antes de buscar igualar-se tecnicamente ao colaborador, deveria tê-lo como recurso inesgotável de “alimentação” informativa. O que o jornalismo precisa, enfim, não é de novas dinâmicas, capazes de lidar com essas informações e processá-las?! Será mesmo que a falta de um diploma diminui a importância da colaboração de uma testemunha ou de um especialista? Ou será que o diploma, do jornalista, não lhe garante mais a eficiência técnica atribuída com tanta bravura à profissão por tantos jornalistas “tradicionais”?


