A aventura do livro -
do leitor ao navegador

Roger Chartier
Unesp (1998 )

Obra com uma postura gráfica deslumbrante, conteúdo denso e empolgante, “A aventura do livro” é um registro de conversas do francês Roger Chartier* sobre a fantástica história dos livros como suportes de leitura, chegando a imaterialidade do texto eletrônico. Quem pensa que densidade e conteúdo são sinônimos de leitura complicada e estafante engana-se enormemente. A coletânea de fantásticas imagens que acompanham a evolução temporal da história da leitura, unida a uma diagramação leve e ao tom informal do texto ganham o leitor já nas primeiras páginas e encaminham cada novo tópico de discussão de forma natural. Para instigá-los um pouco mais, aproveito a textualidade dos códigos de programação para lhes presentear com uma passagem, muito interessante, onde o autor reflete sobre as reconfigurações da Internet frente à imagem sonhada de uma biblioteca universal:


Desde Alexandria, o sonho da biblioteca universal excita as imaginações ocidentais. Confrontadas com a ambição de uma biblioteca onde estivessem todos os textos e todos os livros, as coleções reunidas por príncipes ou por particulares são apenas uma imagem mutilada e decepcionante da ordem de saber. O contraste foi sentido como uma intensa frustração. Esta levou à constituição de acervos imensos, à vontade das conquistas e confiscos, a paixões bibliófilas e à herança de porções consideráveis do patrimônio escrito. Ela inspirou, igualmente, a compilação dessas “bibliotecas sem paredes” que são os catálogos, as coletâneas e coleções que se pretendem paliativos à impossibilidade da universalidade, oferecendo ao leitor inventários e antologias. Com o texto eletrônico, a biblioteca universal torna-se imaginável (senão possível) sem que, para isso, todos os livros estejam reunidos em um único ligar. Pela primeira vez, na história da humanidade, a contradição entre o mundo fechado das coleções e o universo infinito do escrito perde seu caráter inelutável.”




* Roger Chartier é hitoriador, professor e diretor do Centro de Pesquisas Históricas na Ecole des Hautes Etudes em Ciências Sociais na França. Dedica seus estudos à importância da leitura na Europa moderna e explora a relação entre o texto e o leitor na era informática. É um dos mais conhecidos historiadores da atualidade, com obras publicadas em vários países do mundo e sua reflexão teórica inovadora abriu novas possibilidades para os estudos em história cultural e estimula a permanente renovação nas maneiras de ler e fazer a história.