Mojo Books (2)

Novembro 26, 2008



Depois do Reges, agora é a vez da Andréia publicar seu conto musical no projeto “Se música fosse literatura, que história contaria?” da Mojo Books.


Constância: houve sempre a possibilidade da permanência em vertigem, como sabem, o equilíbrio não é o que parece, o equilíbrio voa, foram eles os primeiros a entoar esse mantra. Naquele casulo cravado em algum ponto do infinito foram felizes. Tremendamente. Intensamente. Das unhas aos nervos foram naquela vida contentamento. Ela dançava para celebrar quando ouviu o trovão. Interrompeu o rodopio no ar a violência das patas, tantas, pesadas e frias, ninguém ouviu o grito das dores espalhadas no astral… Cavalos da cor do cobre em disparada, na contramão do ritmo, arrastaram o silêncio para dentro da noite. [leia o conto completo]


Fiquei feliz pela publicação do texto da Déia! Ainda mais por ter sido, segundo ela, quem a apresentou o projeto… O conto é inspirado “Little Green” de Joni Mitchell. Corre lá ;)



Cinco Contos

Agosto 14, 2008





CINCO CONTOS
MANSFIELD, Katherine
Paz e Terra (1997)

O primeiro livro desta estante será essa micro-maravilha de Katherine Mansfield*. A autora é, para mim, uma descoberta “de acaso”: foi citada por Francine Prose como uma das mais extraordinárias escritoras de conto, com a capacidade de retratar, em precisas pinceladas, personagens marcantes e concentrar o sentido de uma vida em poucas páginas. Não é a toa que despertou ciúmes de escritoras como Virgína Wolf. Viveu intensamente, morreu cedo (aos 35 anos) e, mesmo sem nunca ter escrito um romance, deixou seu nome registrado entre os maiores escritores de todos os tempos. Desta pequenina coleção, destaco os contos “A Fuga” e o incrível “Je ne parle pas français“.



* Katherine Mansfield é considerada uma das mais proeminentes contistas de sua época. Neozelandeza a frente de seu tempo, polêmica, a escritora desenvolveu desde muito cedo o amor pelas palavras e transformou a sua curta vida em uma eternidade entre os maiores nomes da literatura mundial. Mesmo sendo muito estimada entre seus contemporâneos, Katherine nunca chegou a publicar um romance, e mesmo muitos de seus contos não foram publicados até a sua morte. Infelizmente, pouco de sua obra já foi traduzido para o português.






A tristeza

O senhor Valéry percorria sempre as mesmas ruas da cidade com os mesmos sapatos, um par de sapatos para cada rua. Desde que nascera que vivia por ali, mas só conhecia 5 ruas que percorria com os seus 5 pares de sapatos diferentes. O senhor Valéry explicava:

- É que absorvo demasiado as coisas. É como se ao atravessar uma rua nova o chão ficasse colado aos meus sapatos e mais ninguém tivesse espaço para pousar os pés. É como se a partir daí só os pássaros pudessem percorrer a rua – finalizava, num tom poético, muito raro para si, pois era um homem que se orgulhava da sua lógica.

- O problema – explicava o senhor Valéry – não é dos sapatos, é da minha vontade de levar para casa tudo aquilo em que toco.

E o senhor Valéry clarificava:

- Como não me sinto completo comigo apenas, penso que tudo o que não sou eu me poderá completar, e portanto quero-o para mim, e roubo-o ao mundo.

- Na verdade, as ruas agarram-se aos meus sapatos porque eu não sou feliz – disse o senhor Valéry, melancólico.

E depois disse ainda, recuperando os seus raciocínios habituais:

- Se um triângulo rectângulo tiver saudades do tempo em que era um quadrado e se quiser voltar a ser de novo um quadrado, não deverá juntar-se ao que deseja ser (o quadrado), pois assim nunca ficará como deseja.

E o senhor Valéry, depois deste raciocínio algo confuso, viu-se obrigado a desenhar para clarificar a ideia.

- Vejam, então, o que sucede se o triângulo rectângulo se juntar à forma em que deseja transformar-se, o quadrado. E o senhor Valéry desenhou



No fundo – disse o senhor Valéry, enquanto fazia outro desenho – devemos juntar-nos, sim, àquilo precisamente que não gostamos de ser, para assim nos conseguirmos transformar no que pretendemos.

E o senhor Valéry desenhou



- E isso é confuso de mais, e é também um pouco triste – disse, a concluir.

O senhor Valéry depois não disse mais nada – já estava cansado e era tarde – porém o último desenho que fez foi o de um quadrado dividido em muitos bocadinhos.





O Senhor Valéry
Gonçalo M. Tavares
Escritos, 2004