O objetivo, porém, é sempre o mesmo – a Verdade – como se eu tivesse uma única verdade e não muitas, todas à flor da pele e lutando entre si como em um campo de batalha. É verdade que nem todos lêem a minha verdade plural, escrita em linguagem simples, e eu não me sinto obrigado a dizê-la de viva voz, como quem recita uma lição de catecismo; eles que me leiam sem complicações, como se eu fora apenas um homem e não um poço de hieróglifos…
Em “A lua vem da Ásia”
Campos de Carvalho
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Outubro 25, 2008
Faz uma semana que me procuro e não me encontro, em verdade faz uma porção de séculos, desde que sou eu, desde que não sou eu. Moro num quarto com um mudo, e eu sou o mudo; ele ainda assobia às vezes, isso é um bom sinal – eu quando assobio é pra fingir que sou eu mesmo, como quando levanto um braço ou me ponho diante do espelho. Esta rosa é diferente, eu a colhi pensando em você pensando que pensava num morto, talvez o morto fosse eu e eu não quisesse aceitar essa verdade, de qualquer forma foi um gesto e não copiei de nenhum outro gesto: se lhe agrada, saiba que foi a primeira rosa que colhi em minha vida, e a última. Não amo as flores, não amo nada, não amava até hoje e até este instante, devo estar pálido ou ruborizado, assim sou eu quando quando não sou eu, não me lembro de estar assim em nenhum outro momento, nem quando morri na guerra. (…) Vim buscar o que é meu, a única das coisas realmente minha, atrás dela iria até o fim do mundo e até o fim dos tempos (…). A rosa na sua mão tem outro viço, outro frescor, é como se voltasse à sua árvore ou dela nunca se houvesse desprendido: trouxe-a para onde estaria a morte, acabei dando-lhe a vida.
Campos de Carvalho
Vaca de nariz sutil


