encantamento

Novembro 24, 2009



Assim viu,
no final,
de repente,

o céu sobre a residência se manchar com o vôo de centenas de pássaros, como expulsos da terra, pássaros de todo tipo, atônitos, fugindo para todos os lados, enlouquecidos, cantando e gritando, explosão pirotécnica de asas, em nuvens de cores e sons, amedrontados, música em fuga, no céu a voar.
Hervé Joncour sorriu.



Seda
Alessandro Baricco


silencio(s)

Novembro 21, 2009



A família, a escola, os outros, todos elegem em nós uma centelha promissora, um território em que poderemos brilhar. Uns nasceram para cantar, outros para dançar, outros nasceram simplesmente para serem outros. Eu nasci para estar calado. Minha única vocação é o silêncio. Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar, um talento para apurar silêncios. Escrevo bem, silêncios, no plural. Sim, porque não há um único silêncio. E todo silêncio é música em estado de gravidez.

Quando me viram, parado e recatado, no meu invisível recanto, eu não estava pasmado. Estava desempenhado, de alma e corpo ocupados: tecia delicados fios com que se fabrica a quietude. Eu era um afinador de silêncios.

- Venha, meu filho, venha ajudar-me a ficar calado.

Ao fim do dia, o velho se recostava na cadeira da varanda. E era assim todas as noites: me sentava a seus pés, olhando as estrelas do alto do escuro. Meu pai fechava os olhos, a cabeça meneando pra cá e pra lá, como se um compasso guiasse aquele sossego. Depois, ele inspirava fundo e dizia:

- Este é o silêncio mais bonito que escutei até hoje. Lhe agradeço, Mwanito.

[...] meu pai me elegera como predileto. A razão desse favoritismo sucedera num único instante: no funeral de nossa mãe, Silvestre não sabia estrear a viuvez e se afastou para um recanto para se derramar em pranto. Foi então que me acerquei de meu pai e ele se ajoelhou para enfrentar a pequenez dos meus três anos. Ergui os braços e, em vez de lhe limpar o rosto, coloquei as minhas pequenas mãos sobre seus ouvidos. Como se quisesse convertê-lo em uma ilha e o alonjasse de tudo que tivesse voz. Silvestre fechou os olhos nesse recinto sem eco: e viu que Dordalma não tinha morrido.



Antes de nascer o mundo
Mia Couto


presente

Novembro 18, 2009



Então estamos no futuro, perguntamos nós, é que temos visto por aí uns filmes que tratam do assunto, e uns livros também. Sim, essa é a fórmula comum para explicar algo como o que aqui parece ter sucedido, o futuro, dizemos nós, e respiramos tranquilos, já que pusemos o rótulo, a etiqueta, mas, em nossa opinião, entender-nos-íamos melhor se lhe chamássemos outro presente, porque a terra é a mesma, sim, mas os presentes dela vão variando, uns são presentes passados, outros presentes por vir, é simples, qualquer pessoa perceberá…


CAIM
Jose Saramago



ano novo

Novembro 11, 2009



Nessas épocas não tem outra, astros se alinhando interferem na química do cérebro, draminhas de novo ano astral.

Acho que, daqui de onde me vejo, soube aprender com os outros. Não teria tempo de errar tudo por conta própria, então valia a pena pular etapas. Acho que ganhei tempo. Só não sei bem pra quê. E nesse movimento me tornei um ser bem teórico. Não vejo nada de mal nisso, ao contrário, me realiza poder teorizar o que vejo. Além disso, me serve bem pro trabalho, tendendo sempre ao abstrato. A ciência, veja bem, é feita de provas, mas é antes feita de teses. Já a vida, é feita de erros e acertos, de decisões camufladas em sentimentos nada menos que abstratos, se bem que pouco ou nada teóricos. Tenho quase 26, e em alguns casos sigo sendo vista como criança. Sempre nova demais em tudo que fazia. Consigo perceber que já fui longe, a vida simples me parece tão distante agora. Por aqui tudo demanda justificativa, metodologias e resultados. As coisas, com o tempo, vão se tornando mais difíceis. Não porque tenham mudado. Mas porque eu mudei. E esse excesso de zelo, essa busca por explicações e respostas, sempre te leva pra mais longe da simplicidade.

E por engraçado que pareça, entre toda mudança algumas coisas permanecem as mesmas. Poucas, mas estão ali. Provavelmente são dos baús mais pesados, memórias doloridas, fechaduras enferrujadas. Mas que as vezes um vento qualquer ameaça virar pra esparramar. Tenho quase 26, e é cedo demais pra achar que conheço alguma coisa, de verdade. Cedo demais pra desistir do guarda-chuva de ovelhinha ou do bolo quente de mãe. E tenho tanto ainda o que experimentar. Teorias à parte, bom mesmo é perder o juízo na chuva, bobear com os amigos, perder a hora pro trabalho, reclamar de tudo, querer mudar o mundo.

Em poucos dias o universo se realinha pra mim. Tenho quase 26, tenho quase 86, tenho menos que 6. O que eu penso, pensando nos astros, é no tudo que tenho feito pelo tudo que quero fazer. Quero mais simplicidade. Não quero uma teoria, quero muitas. Quero todas. Quero dividir atenção por interesses controversos. Quero abraçar o planeta com o espaço de um abraço encaixado. Quero ser grande, e andar na chuva com sombrinha de ovelhinhas. Quero gastar dinheiro com sapato, quero amar simplesmente, e sem razão. Quero salvar o mundo, mesmo que seja com a caneta. Quero conhecer gente, sentir o mundo e dizer que estive ali. Quero saber tudo, cantar na praia, beijar na rua, fazer discurso. E voar de balão. Quero prosa, quero agulha e linha. E tudo o que quero é nada mais do que tenho, já agora. Talvez um ou outro negrito.

É, não sou diferente. Mas não existe outra assim.