A viagem da esperança
Outubro 23, 2009
Com o postal em mãos, sorte de filho que aprendeu a ler, o pequeno observa o pai, jeito árido que esbraveja ansiedade, traçando a fuga pra esperança. No verso do papel tingido com os alpes suíços, grafia descuidada, o amigo conta das maravilhas do paraíso, muito diferentes da monotonia cortante do chão turco que agora o pai observa, ao longe. Na criativa ingenuidade de criança, o menino se aproxima da cabra preta, a favorita, e lhe explica que nos alpes tudo é melhor, e que se ela puder provar como são alpes, também dará mais leite. Pensando na promessa rabiscada na montanha de papel, o menino conversa com a cabra, tentando convencê-la a comer o postal.
Entre a imagem sedutora de um futuro no “paraíso depois da montanha”, gelado mar de brancura, com os desenhos de um vir-a-ser, e os desafios pedregosos do abandono para um recomeço, “A viagem da Esperança” (Reise der Hoffnung), do diretor suíço Xavier Koeler, narra a saga privada da aventura humana, em toda a sua simples imperfeição.
No filme de 1990 (Oscar de Melhor Longa Estrangeiro), seguimos os personagens, desbravando entre sonhos as riquezas culturais do povo turco, que parte aos alpes suíços em busca de nova oportunidade de ser.

Pequenas histórias reunem-se em torno da família que migra, e contam dos anseios, medos, dores e esperanças de quem enfrenta o desconhecido pela força de uma ideia. Somos movidos pelo que nos é tão semelhante: anseios ancestrais. Somos contrapostos ao que nos diferencia: de onde vemos, cada mundo pode se tornar particular.
“A viagem da Esperança” nos obriga, entre as magníficas imagens da beleza do mundo, a perceber também as crueldades – pedregulhos – da necessidade do homem de se reinventar. A força inspiradora da montanha no papel contrasta com a força faminta da montanha de gelo, e nos faz considerar, na dor de uma culpa, nossas próprias promessas, nossos próprios paraísos.
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Outubro 22, 2009
Sempre choro na cena do balão…
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Outubro 16, 2009
…tem dias que o maior drama reside nesse pequeno intervalo entre o que imagino que o outro pensa e como ele de fato me vê. Porque me tento alerta, me esforço paciente, mas tudo o que deixo, entrelinhas, são lacunas de intolerância, rastros de imperfeição. Pudera fazer que minha vista das coisas fosse única, intocável, verdadeira. E de novo entendo que minha realidade desbotada nem se aproxima da ponta de lençol da cama, em cada outro dia de manhã.
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Outubro 12, 2009
Quando nasceu, tinha anjo nenhum por perto pra dizer se ia ser certa ou ia ser gauche, que o tal designado só chegou com dois dias de atraso. E não foi coisa de desdém, não. Faz nem um mês ele até confessou: nunca soube se entender com essas mesuras do Tempo, que tem vez que se demora, outra que toma de assalto.
O fato é: o sujeito ficou caído de amores por uma fulana chamada Érato, que avistou no Municipal enquanto acompanhava um violoncelista, seu protegido, e perdeu a hora.
Pra compensar (e porque decerto se atrasaria de novo) tratou de logo colocar um livro nas mãos da menina, pra modo de ela ir se distraindo ali, enquanto ele se distraía em outra parte.
E a menina pegou gosto por aquilo. E muitas vezes nem precisou recorrer ao anjo porque tinha mais o que fazer na Biblioteca Pública.
Hoje é a ela que o anjo recorre quando tem insônia e não aviou a receita dos comprimidos. Ele lhe segreda ao pé do ouvido um tanto do que vê, ela lhe devolve histórias com aquilo tudo misturado e invertido: pedaço dela, fatia de um, bocado de outro. E assim se diverte e se espanta até cair no sono, aliviado porque nesse mundo que inventa ninguém lhe pede pra intervir.
Pois vejam só como essa vida é estranha: se tudo tivesse saído dentro dos conformes, como rezava a Lei, vai ver o enredo seria outro. E a menina também.
Às vezes o melhor se dá é nas brechas dos desconformes.
Bendito o atraso do anjo!
Manoela Sawitzki
Teimoso
Outubro 8, 2009
Teimosia é querer que o mundo se veja através dos seus olhos. Diversidade não existe fora das quatro linhas em que arrisca seus palpites, algumas vezes infelizes. Teimosia, sim. Claro, há de se convir que não é fácil deixar que o mundo se mostre através de outras quaisquer lentes. Se existe um mundo certo, é esse, pincelado bem embaixo do seu nariz. Se cada um tem um nariz só seu, porque não haveria de ter um mundo, não é mesmo?
Teimosia é precisar olhar sempre e só pro próprio umbigo. E tem quem consiga fazer caridade, unicamente pra satisfazer essa peculiar parte da anatomia, que só tem valor, mesmo, até o primeiro choro. Eu, choro de raiva dessa necessidade de ser, e o que se há de aprender com um umbigo?
Teimosia é insistir que é capaz, que é valente, que é forte ou competente, num faz-de-conta onde quem menos precisa corre mais rápido. Na verdade, o que menos importa é onde se vai chegar. O importante é ir, sempre pra frente. E na encruzilhada é seguir a manada: burros n’água.! E burros molhados ensinam mais que um umbigo?
Não pode mesmo ser possível achar que uma vida é melhor que a outra, pode? Assim, assado, calado, pelado, agitado, curvado, sarado, cansado… Hunf! Tudo a mesma coisa, se colocar no microscópio.


