Inspiração…
Setembro 27, 2008

por onde andará??
A maleta do meu pai
Setembro 18, 2008

A maleta do meu pai
Orhan Pamuk
Cia das Letras (2008 )
Pamuk* é celebrado pelo mercado editorial por best-sellers como “Neve” e “Meu nome é vermelho”, entre outros. Mas antes de ser um ícone da cultura literária de consumo, este ilustre personagem guarda mais de cinco décadas de paixão pela arte das palavras. “A maleta do meu pai” é mais um de uma série de publicações recentes que vem cedendo espaço ao “estado escritor”: livros que ensinam a arte da leitura e da escrita, ou que buscam entender essa aura quase mágica que cerca as mentes criativas daqueles que já são considerados “grandes”. O que difere o livreto de tantos outros é, exatamente, o relacionamento deste turco com seu objeto de trabalho, as histórias; e seu material base são os discursos pronunciados por Orhan Pamuk por ocasião de algumas de suas mais expressivas premiações: o Nobel em 2006, o Friedenspreis em 2005 e a Conferência Puterbaugh em 2006.
Talvez sua obra fale mais por si só:
Os romances nunca serão totalmente imaginários nem totalmente reais. Ler um romance é confrontar-se tanto com a imaginação do autor quanto com o mundo real cuja superfície arranhamos com uma curiosidade tão inquieta. Quando nos refugiamos num canto, nos deitamos numa cama, nos estendemos num divã com um romance nas mãos, nossa imaginação passa a trafegar o tempo entre o mundo daquele romance e o mundo no qual ainda vivemos. O romance em nossas mãos pode nos levar a um outro mundo onde nunca estivemos, que nunca vimos ou de que nunca tivemos notícia. Ou pode nos levar até as profundezas ocultas de um personagem que, na superfície, parece semelhante às pessoas que conhecemos melhor. Estou chamando atenção para cada uma dessas possibilidades isoladas porque há uma visão que acalento de tempos em tempos que abarca os dois extremos. Às vezes tento conjurar, um a um, uma multidão de leitores recolhidos num canto e aninhados em suas poltronas com um romance nas mãos; e também tento imaginar a geografia de sua vida cotidiana. E então, diante dos meus olhos, milhares, dezenas de milhares de leitores vão tomando forma, distribuídos por todas as ruas da cidade, enquanto eles lêem, sonham os sonhos do autor, imaginam a existência dos seus heróis e vêem o seu mundo. E então, agora, esses leitores, como o próprio autor, acabam tentando imaginar o outro; eles também se põem no lugar de outra pessoa. E são esses os momentos em que sentimos a presença da humanidade, da compaixão, da tolerância, da piedade e do amor no nosso coração: porque a grande literatura não se dirige à nossa capacidade de julgamento, e sim à nossa capacidade de nos colocarmos no lugar do outro.
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* Orhan Pamuk é um turco de 56 anos, que por sua dedicação a arte e a liberdade política hoje é um exilado nos Eua. Ganhador do Nobel de Literatura em 2006, hoje é professor de literatura em Columbia e aclamado mundialmente como um dos mais importantes escritores turcos, tendo seus livros traduzidos em mais de 40 idiomas.
Hilárias neuroses
Setembro 5, 2008
O Complexo de Portnoy
Philip Roth
Cia. das Letras (2004)
para dizer o mais óbvio, é um belo texto sobre as terríveis conseqüências do excesso de amor de uma mãe judia. para dizer o mais relevante, são insights finamente irônicos sobre a culpa, o medo da liberdade e a busca de reconhecimento. para dizer o universal, é o onipresente sentimento de dever algo a alguém – dever cumprir expectativas que não são suas, dever corresponder a exigências com as quais não concorda, dever ser perfeito quando você sabe que isto é impossível.
Quando li o post da Marcia no Patifaria (que recomendo com insistência), simplesmente não resisti a curiosidade e imediatamente fiz a encomenda de “O Complexo de Portnoy“. O li também assim, como um impulso, um único sopro de ar. Parece mesmo impossível parar entre os capítulos mal traçados deste… como poderia definir?… deste soco no estômago desenhado por Roth*.
Preciso confessar que não foram tantas as gargalhadas quantas imaginei. Ainda assim foram muitas. O texto simplesmente me acertou em cheio, e o fará com todos de certa forma. Porque é na trivialidade exacerbada que Philip busca sua inspiração, é dos dramas mais cotidianos que surge sua narrativa. Ou monólogo. Não há como, tendo sido filho, não se identificar com algum dos momentos da vida magistralmente narrada de Alex Portnoy, o narrador desesperado.
Mas, talvez, as semelhanças parem por aí. Entre as neuroses da personagem, sua busca por contestação, seu desapego, existe esse contraditório sentimento, uma necessidade inesgotável de pertencimento e aceitação. Uma negação persistente do desejo de ser igual.
A narrativa de Roth é refinada, muito refinada. De uma qualidade literária praticamente impecável, onde o humor é o tempero do reconhecimento. O leitor se compadesse do sofrimento de Portnoy, ri das desventuras e lamúrias do inadequado trintão, e isso porque, de certa forma, se identifica com ele. Enquanto o pequeno imperfeito narra suas ansiedades no divã, nós, os calados psicanalistas cotidianos, temos a oportunidade de nos deleitar com essa impagável receita de bem escrever.




