O Aleph

Julho 17, 2008



Vi o mar populoso, vi a alvorada e a tarde, vi as multidões da América, vi uma teia de aranha prateada no centro de uma negra pirâmide, vi um labirinto truncado (era Londres), vi intermináveis olhos imediatos perscrutando-se em mim como num espelho, vi todos os espelhos do planeta e nenhum me refletiu, (…) vi cachos de uva, neve, tabaco, veios de metal, vapor de água, vi convexos desertos equatoriais e cada um de seus grãos de areia, (…) vi ao mesmo tempo cada letra de cada página (quando menino, eu costumava me maravilhar com o fato de as letras de um volume fechado não se misturarem nem se perderem no decorrer da noite), vi a noite e o dia contemporâneos, (…) vi a delicada ossatura de uma mão, vi os sobreviventes de uma batalha enviando cartões-postais, vi numa vitrine de Mirzapur um baralho espanhol, vi as sombras oblíquas de algumas samambaias no chão de uma jardim-de-inverno, vi tigres, êmbolos, bisões, marulhos e exércitos, vi todas as formigas da Terra, vi um astrolábio persa, (…) vi a circulação de meu sangue escuro, vi a engrenagem do amor e a transformação da morte, vi o Aleph, de todos os pontos, vi no Aleph a Terra, e na Terra outra vez o Aleph e no Aleph a Terra, vi meu rosto e minha vísceras, vi teu rosto, e senti vertigem e chorei, porque meus olhos tinham visto aquele objeto secreto e conjectural cujo nome os homens usurparam mas que nenhum homem contemplou: o inconcebível universo.


O Aleph
Jorge Luis Borges


4 Responses to “O Aleph”

  1. Ana Says:

    grande borges…
    (há tempos que eu não passava por aqui)
    beijos

  2. mc Says:

    oie! te passei um meme! olha lá no blog!


  3. Excelente escolha.
    Muitas vezes me servi de A Busca de Averroes para para contar como Aristoteles chegou ate nos e para explicar que o tradutor e um traidor. Escrevo num computador sem acentos. Beijinho


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