Notas dos eus em mim

Essas coisas todas são apenas traços de palavras…

Cobertor de estrelas

com 2 comentários



Cobertor de Estrelas, de Ricardo Lísias, é, antes de tudo, um livro sobre tudo o que grande parte das pessoas que lêem livros não quer saber. Uma narrativa sem nome, sem lugar, que é ao mesmo tempo tantos em tantas grandes cidades. Conta sobre a vida do ‘menino’, e de tantos outros meninos que tem apenas as estrelas como cobertor – e os sonhos.


O menino não fica bravo com aquelas pessoas diferentes que, de vez em quando, vêm tirar fotografias deles. É engraçado, eles chegam um pouco perto, falam umas coisas que não dá pra entender e tiram umas fotografias. Algumas mulheres ainda dão um dinheiro, mas é um dinheiro diferente, não dá pra comprar em qualquer lugar.

No começo, o menino achava esquesito eles falarem diferente, ele pensou até que era bobos igual uns mendigos, principalmente os que dormem lá perto da estação de trem. Mas o padre explicou que não, eles falam diferente porque moram muito longe, alguns até depois do mar. Então, o menino percebeu que o jeito de falar depende do lugar que a pessoa tem a casa dela. Se fica longe, aí a pessoa fala diferente.

Mas então, no outro dia, o menino pensou que primeiro ele teria que comprar uma casa, para depois aprender a ler e a escrever, para aprender do jeito que falam onde seria a casa dele. Só que o padre falou que ele precisa primeiro aprender a ler e a escrever para depois comprar a casa dele, como ele vai saber qual é o jeito dele, se ele ainda não tem casa? Se for assim, então, só podem aprender a ler e a escrever as crianças que já têm uma casa, porque aí elas aprendem do jeito que é onde fica a casa, para depois poderem comprar outra casa para os filhos deles. Ele, que não tem casa nenhuma, não vai poder aprender a ler e a escrever nunca, porque não vai saber qual é o jeito certo.

Ricardo Lísias
Cobertor de Estrelas, p.38



Written by L@uR!nh@

Maio 16, 2008 às 10:17 am

Publicado em Literatos, Livros

2 Respostas

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  1. Diferente e instigante!

    Ma

    Maio 16, 2008 em 10:15 pm

  2. O trecho destacado é lindo!!
    Realmente parece o raciocínio de uma criança de rua.

    José Frid

    Junho 4, 2008 em 3:48 pm


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