Notas dos eus em mim

Essas coisas todas são apenas traços de palavras…

Novo vizinho no Bairro

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A tristeza

O senhor Valéry percorria sempre as mesmas ruas da cidade com os mesmos sapatos, um par de sapatos para cada rua. Desde que nascera que vivia por ali, mas só conhecia 5 ruas que percorria com os seus 5 pares de sapatos diferentes. O senhor Valéry explicava:

- É que absorvo demasiado as coisas. É como se ao atravessar uma rua nova o chão ficasse colado aos meus sapatos e mais ninguém tivesse espaço para pousar os pés. É como se a partir daí só os pássaros pudessem percorrer a rua – finalizava, num tom poético, muito raro para si, pois era um homem que se orgulhava da sua lógica.

- O problema – explicava o senhor Valéry – não é dos sapatos, é da minha vontade de levar para casa tudo aquilo em que toco.

E o senhor Valéry clarificava:

- Como não me sinto completo comigo apenas, penso que tudo o que não sou eu me poderá completar, e portanto quero-o para mim, e roubo-o ao mundo.

- Na verdade, as ruas agarram-se aos meus sapatos porque eu não sou feliz – disse o senhor Valéry, melancólico.

E depois disse ainda, recuperando os seus raciocínios habituais:

- Se um triângulo rectângulo tiver saudades do tempo em que era um quadrado e se quiser voltar a ser de novo um quadrado, não deverá juntar-se ao que deseja ser (o quadrado), pois assim nunca ficará como deseja.

E o senhor Valéry, depois deste raciocínio algo confuso, viu-se obrigado a desenhar para clarificar a ideia.

- Vejam, então, o que sucede se o triângulo rectângulo se juntar à forma em que deseja transformar-se, o quadrado. E o senhor Valéry desenhou



No fundo – disse o senhor Valéry, enquanto fazia outro desenho – devemos juntar-nos, sim, àquilo precisamente que não gostamos de ser, para assim nos conseguirmos transformar no que pretendemos.

E o senhor Valéry desenhou



- E isso é confuso de mais, e é também um pouco triste – disse, a concluir.

O senhor Valéry depois não disse mais nada – já estava cansado e era tarde – porém o último desenho que fez foi o de um quadrado dividido em muitos bocadinhos.





O Senhor Valéry
Gonçalo M. Tavares
Escritos, 2004


Written by L@uR!nh@

Maio 8, 2008 às 11:26 am

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