Não é por férias…

Janeiro 30, 2008

… que eu não posto! É por trabalho mesmo. E um pouco de falta de inspiração.
Ainda assim, Little Miss Sunshine é uma gracinha. Infelizmente, por esses acasos que a gente não explica, ainda não tinha assistido ao filme. Desde os comentários da Penkala,

Olive, a personagem do título, é a criança mais incrível do cinema dos últimos tempos. apesar disso, e de ser um personagem central e de ser muito bem interpretada, Olive é apenas um ponto onde se cruzam vidas extremamente ricas, cada qual fazendo uma crítica tão profunda à sociedade e ao mundo de hoje que é difícil acreditar que esse filme tenha sido feito nos EUA. porque a crítica é mesmo muito séria e ferrenha, e inteligente. só que em momento algum o filme esbarra no didático ou na pedagogia pseudolight.

little miss sunshine fala de filosofia, mas nos dias de hoje. a questão do POR QUE ESTAMOS AQUI é meio ultrapassada, porque a pergunta que parece pairar durante o filme todo é O QUE DIABOS EU VIM FAZER AQUI?, o que, VEJA BEM, é completamente diferente, sabe? deu pra sacar?

…bem, desde aí eu queria muito ver esse filme.
E, bem, é isso mesmo! Intenso.

Vidas tão comprometidas e, ao mesmo, tão estranhas entre si. Todos enfrentando o ‘mundo’, cada um a sua maneira. O que une cada um no empurra-empurra da kombi amarela pode ser um profundo circulo de coincidências, e pode ser simplesmente aquele mistério que tem movido o universo desde tempos esquecidos. Medos, sonhos, amores.

E quando aquelas micro-Barbies com vários topetes de fibra na cabeça começam a desfilar, rebolando entre babadinhos coloridos e fitas compridas, a beleza daquela criança, da pequena Olive, ressalta como o tesouro perdido de cada um daqueles humanos. Eles não levaram a menina pro concurso, eles levaram seus sonhos perdidos pro palco e, com a pequena Miss Sunshine aprenderam a grande lição: não são as plastic-girls do mundo que interessam, nem o que elas vestem na cabeça ou o que usam pra segurar aqueles sorrisinhos medonhos durante tanto tempo. O que importa é que a menina Sunshine faça o que veio fazer. Que cada um faça o seu papel. Mas juntos. Porque ninguém precisa sofrer sozinho. E sofrer junto não significa sofrer menos, mas pode significar não se perder no sofrimento.

Outono

Janeiro 23, 2008

Um belo dia resolveu mudar, e fazer tudo o que queria fazer, como na canção…. decidiu que aprenderia a não sofrer tanto de saudade. Se franceses, chineses, paquistaneses e holandeses eram capazes de viver com dicionários, gramáticas e histórias de amor em que nunca houve vazio ou ausência, ela também podia. Saudade, afinal estava na lista das palavras (era a sétima) mais difíceis de traduzir do mundo – só perdia para ilunga (“alguém disposto a perdoar quaisquer maus-tratos pela primeira vez, a tolerar o mesmo pela segunda vez, mas nunca pela terceira vez”, no idioma africano Tshiluba), shlimazi (“alguém cronicamente azarado”, em ídiche) e outras quatro do mesmo tipo.

Era outono, afinal, tempo de colheita e folhas que caem, amarelas; de dias e noites com duração semelhante, de, segundo a ciência, luz solar que incide perpendicularmente sobre o Equador, de ambos os hemisférios igualmente iluminados. E, se maias, astecas, chineses, hindus e japoneses acreditam desde os tempos mais remotos, vai ver é mesmo verdade que o outono é a melhor hora do mundo para resolver mudar, e fazer tudo o que queria fazer.”

Outono – by Ana

Ajuda blogueira

Janeiro 23, 2008

Heath Ledger

Janeiro 23, 2008


* 04/04/1979
+ 22/01/2008

O país distorcido

Janeiro 23, 2008

Milton Santos
Publifolha, 2002

Há desigualdades sociais que são em primeiro lugar desigualdades territoriais, porque derivam do lugar onde cada qual se encontra. Seu tratamento não pode ser alheio às realidades territoriais. O cidadão é o indivíduo num lugar. (…) O que está em jogo não é apenas a distribuição das pessoas sobre o território. Não se pode ficar impunemente repetindo que o número de eleitores-eleitos deve ser estabelecido em conformidade aritmética com o número de eleitores-votantes (…). Números são, simplesmente, abstrações. (…) As desigualdades territoriais são hoje de novo tipo, e os critérios de representatividade devem espelhar essa nova condição. (1987)

Uma das consequências do presente processo de globalização é exatamente a dificuldade para encontrar ou atribuir um sentido aos objetos que nos rodeiam e às ações em que estamos envolvidos. Tudo ou quase tudo se apresenta confusamente, a começar da própria noção de cidadão, central no exercício da democracia, mas, agora, substituída pela figura do consumidor ou do usuário, em torno da qual se contrói a atual democracia de mercado (…). Daí o embevemecimento equivocado, transmitido aos eleitores, por centímetros de córregos canalizados, dezenas de janelas implantadas, e pelo número de postes informatizados, como se cada qual dessas coisas, úteis à existência material cotidiana, pudesse ser entendida fora de um modo de vida que primeiro constrói carências materiais e culturais e sociais e políticas, para depois dar remédio, fragmentário e insuficiente, apenas às carências materiais, omitindo-se quanto aos outros reclamos, dos quais advém o verdadeiro sentido da vida humana. (1996)

A questão central que nos ocorre, sobre a nossa interpretação de nós próprios, (…) é a seguinte: é possível opor uma história do Brasil a uma história européia do Brasil, um pensamento brasileiro em lugar de um pensamento europeu ou norte-americano do Brasil, ainda que conduzido aqui pelos bravos brazilianists brasileiros?
Não se trata de inventar de novo a roda, mas de dizer como a fazemos funcionar em nosso canto do mundo; reconhecê-lo será um enriquecimento para o mundo da roda e um passo a mais no conhecimento de nós mesmos.
Ser internacional não é ser universal, e para ser universal não é necessário situar-se nos centros do mundo. Inclusive pode-se ser universal ficando confinado à sua própria língua, isto é, sem ser traduzido. Não se trata de dar as costas à realidade do mundo, mas de pensá-la a partir do que somos, enriquecendo-a universalmente com as nossas idéias; e aceitando ser, desse modo, submetidos a uma crítica universalista e não propriamente européia ou norte-americana. (1999)

A nova arquitetura do mundo, da qual resulta a globalização a que estamos assistindo, se funda na universalidade de um sistema técnico. E, nas condições atuais, tudo o que se refere a ações hegemônicas na vida econômica, política e cultural parece se dizer em inglês.
Mas, da mesma forma que não existe espaço global, senão apenas espaços de globalização, também não existe uma língua universal, senão apenas uma língua universalizante. Atualmente, os espaços lingüísticos hegemônicos estão incluídos nos espaços geográficos e de certo modo os englobam, por sua vez. Mas eles já não se superpõe. Esses novos espaços lingüísticos são espaços instrumentais, e não espaços vitais, no sentido próprio: são espaços de organização, e não espaços orgânicos. (2000)

No seu movimento atual, as grandes cidades brasileiras já apontam, aliás, para o futuro. Para ficar num só exemplo, a enorme extensão territorial é agravada pela imobilidade absoluta ou relativa a que são condenados os habitantes mais pobres. Ficam, desse modo, ainda mais pobres, subordinados à lei do mercado quanto ao emprego e quanto à disponibilidade de bens e serviços, mais raros e mais caros, nas frações da cidade onde se encontram virtualmente confinados. Pode-se até imaginar que, a prosseguir como vamos, as grandes cidades serão tão fragmentadas material e socialmente quanto já o são hoje os seus moradores. (1985)

O que é mais grave, neste mundo globalizado, onde nada se faz sem discurso, é que os livros não se tornam best-sellers, são encomendados para ser best-sellers, com uma biografia previamente traçada nos escritórios das grandes editoras. (…) neste fim de século, um grande problema e um urgente dever é reaprender a ler livros. (1994)

Hoje, sob o pretexto de que é preciso formar estudantes para obter um lugar no mercado de trabalho afunilado, o saber prático tende a ocupar todo os espaço da escola, enquanto o saber filosófico é considerado como residual ou mesmo desnecessário, uma prática que, a médio prazo, ameaça a democracia, a república, a cidadania e a individualidade. Corremos o risco de ver o ensino reduzido a um simples processo de treinamento, a uma instrumentalização das pessoas, a um aprendizado que se exaure precocemente ao sabor das mudanças rápidas e brutais das formas técnicas e organizacionais do trabalho exigidas por uma implacável competitividade. (…) a escola deixará de ser o lugar de formação de verdadeiros cidadãos e tornar-se-á um celeiro de deficiente cívicos. (1999)

Você é treinado, mas não é educado. (…) Nada é feito para que você seja igual, porque a pobreza não é definida só pela renda. É pelo poder, é a posição que você tem na sociedade. Se você só é treinado, você não está apto a discutir o seu lugar na sociedade, e esse é o debate central. A estatística simplifica tudo. As pessoas ficam felicíssimas com os índices. (2001)

Lidos, e relendo…

Janeiro 22, 2008

Sempre podemos ter alguma leitura extra na cabeceira, além das leituras básicas pras construções dos artigos… Eu confesso que perdi o ritmo de leitura nas férias, pra compensar o começo de 2008 está sendo recheado. Alguns começam a deixar a cabeceira…

2 livros do Rogério Santos, “A negociação entre jornalistas e fontes” e “Jornalistas e fontes de informação“, que não encontrei links nas lojas on-line brasileiras. Estes 2 livrinhos são excelentes, o autor é organizado no traço das teorias de jornalismo com a questão específica das fontes…

Pensando Contra os Fatos
Sylvia Moretzsohn

PS: confesso que é o primeiro livro dela que eu leio, apesar de já ter lido vários dos seus artigos e ter escutado algumas de suas opiniões pessoalmente. Gostei, muito. Ela é provocadora, e intimida pela carga de conhecimentos (teóricos e práticos) que tem…

Matin Heidegger e a questão da técnica
Francisco Rüdiger

PS: leitura do semestre (passado!), foi resgatado por causa de uma nota não muito convincente. Uma segunda leitura, e a falta de convencimento permanece… :(

Introdução as Teorias de Cibercultura
Francisco Rüdiger

PS: textinho básico da graduação, mas sempre ajuda a voltar às raízes quando se precisa começar um “problema”. E é tão rapidinho de ler…

Travessuras de menina má
Mario Vargas Llosa

PS: esse tá complicado. Já comecei e parei umas trezentas vezes, vou ter que forçar a barra qualquer hora dessas e ler de vez, senão… Ou vai pra estante por alguns meses mesmo e espera a paciência.

O país distorcido
Milton Santos

PS: uma coletânea de artigos do geógrafo, publicados nas décadas de 1980/90 na Folha de São Paulo. Ele discute a geografia e a realidade brasileira, considerando os novos aspectos socio-econômicos como a globalização, as tecnologias, as relações hegemônicas resultantes. O mais interessante é a leitura do material pré-constituinte, uma fase da qual não fiz parte (ao menos eu era uma criança) e que me força curiosidade!…

História das Relações Internacionais
Antonio Carlos Lessa

PS: uma panorâmica da história do surgimento das Relações Internacionais. Simples, sem nenhuma novidade (hehe!), mas interessante por trazer à história esses enlaces diplomáticos do entre-guerras.

Janeiro 18, 2008

Vocês, artistas (…)
Devem representar o que é;
mas também insinuar
o que poderia ser e não é
e seria bom que fosse
ao representarem o que é.

##

Tudo entreguei ao assombro
Mesmo o mais familiar.
Que uma mãe deu o peito ao filho
Isso relatei como algo em que ninguém acreditará.
Que o porteiro bateu a porta ao homem morrendo de frio
Como algo que ninguém jamais viu

(Bertolt Brecht)

Resultado do dia:

Janeiro 15, 2008

Dia de calor intenso, e programação interessante: hoje foi a banca de dissertação da Mestre MC!! Ela ficou com conceito A, óbvio; virou Mestre e já vai aprontar de novo, né doutoranda?!
PARABÉNS, guria… :D
Ps: foi especialmente ótimo rever a Raquel!

meme punk-filosófico

Janeiro 15, 2008

Eu estava postando o que segue, na noite de ontem, quando faltou luz total!! Demorou bastante a voltar e quando aconteceu minha paciência com computadores já estava esgotadinha… Então, ficou pra hoje! Tudo de novo:

Ok… A Laura vai tentar responder o meme indicado pela Marcia, mas avisa que achou complicado. E é por isso que ela resolveu escrever tudo em terceira pessoa, mesmo se referindo única e exclusivamente a “ela própria mesma”. Fazer o quê!?

1. Quem já fez sua cabeça?
Talvez se Laura estivesse mesmo respondendo este meme ela diria que o Foucault já fez diferença – o que não significa nada, visto que se pode dizer que ele ‘é’ diferença… Ao menos foi com um livreto dele que ela suportou vários semestres do Direito…

2. Quem corta o seu cabelo?
Laura certamente gostaria de dizer que faz essas coisas sozinha, que é talentosa com as tesouras e imagens invertidas no espelho. Mas como isso não seria verdade, ela acaba sempre confessando que os cortes são responsabilidade da Polaka, há alguns anos… :P

3. Quem te enche os olhos?
Os olhinhos de Laura ficam vidrados quando vê aqueles moços de propaganda de óculos, sabe!? Mas ela anda tombada, mesmo, por um mocinho italiano, num pequeno bote perdido no mediterrâneo, de uma propaganda de perfume que passa na tv… Ufff!

4. Quem enche o seu saco?
Tem apenas uma pessoa, nos últimos tempos. É preciso considerar que pra ‘encher o saco’, quando se trata da Laura, a pessoa precisa ter um talento e tanto com a chatisse… Laura nunca cita o nome, porque vá que a pessoa saiba e depois resolva lhe infernizar de verdade?!… Mas esse ser existe, ainda.

5. Quem não sai da sua cabeça?
Hum… Bem! Não é tão fácil, nem mesmo pra mim, entrar em contato com a mente perturbada de Laura. Mas arrisco dizer que se, por ventura, ela se manifestasse aqui sobre o caso, diria que tem algo haver com ‘problemas de pesquisa’… :P

Ah, claro… Quer brincar? Repasso o meme pra Larissa, Helena, André Marmota, Gisele, Sandra, Alex e Michel… E, claro, quem mais se interessar… :P

Nossa realidade mediada

Janeiro 14, 2008

Todo o nosso conhecimento do mundo, tanto no senso comum como no pensamento científico, supõe construções, isto é, conjuntos de abstrações, generalizações, formalizações e idealizações próprias do nível respectivo de organização do pensamento. Em termos estritos, os fatos puros e simples não existem. Desde o primeiro momento todo fato é um fato extraído de um contexto universal pela atividade de nossa mente. Por conseguinte, os fatos são sempre interpretados, quer sejam eles considerados inseridos em seu contexto ou separados dele mediante uma abstração artificial. Num e noutro caso, levam consigo seu horizonte interpretativo interno e externo. Isso não significa que na vida diária ou na ciência sejamos incapazes de captar a realidade do mundo, mas que captamos apenas alguns aspectos dela: os que nos são úteis para viver ou que nos interessam do ponto de vista de um conjunto de regras de procedimentos próprias para o pensar, às quais chamamos método científico” (Alfred Schutz, 1962).