A Eva Futura
Outubro 31, 2007
Villiers de L’isle-Adam
Editora Edusp
Venho dizer-lhes: do momento em que somos deuses e nossas esperanças são somente científicas, porque nossos amores não se tornariam idênticos? – No lugar da Eva da lenda esquecida, da lenda desprezada pela Ciência, ofereço-lhes uma Eva científica – a única digna, me parece, dessas vísceras definhadas que os senhores – por um resquício de sentimentalismo do qual são os primeiros a sorrir – chamam ainda de ’seus corações’. (…) Enfim, eu, ‘o mago de Menlo Park’ como sou denominado neste mundo, acabo de oferecer aos humanos de hoje e do futuro – … – a possibilidade de preferir a uma mentirosa, medíocre e sempre cambiante Realidade uma prestigiosa e sempre fiel Ilusão. Quimera por quimera, pecado por pecado, fumaça por fumaça – então, por que não?” (p.290)
A Eva Futura (escrito em 1886) é quase uma alegoria da cibercultura, mas nos tempos das faíscas elétricas. É, na verdade, uma alegoria da Modernidade – esse tempo que se forjava às custas de seu novo combustível, a eletricidade. Esta obra interessantíssima é resultado da genialidade criativa e poética de Villiers de L’isle-Adam, que une em um triângulo espetacular o pensamento Moderno, as experiências científicas com a eletricidade e a lendária figura do ‘gênio da lâmpada’, por assim dizer, Thomas Edison.
Sim, o inventor americano se tornou uma lenda, especialmente na Europa – que recebia notícias dos avanços e descobertas espetaculares de Edison. Na obra de Villiers, Thomas Edison é reconstruído (mesmo estando vivo na época do livro) como o personagem mítico que circulava pelo mundo, através de histórias. Um homem que, em 1886, tinha sua casa de Menlo Park conectada ao apartamento em Nova York por telefone, ‘fax’ em código morse… As suas casas tinham também luz elétrica e ele, já detentor do conhecimento do fonógrafo, captava sons que eram retransmitidos em diversas partes da casa: pássaros artificiais emitiam cantos, risos, conversas humanas, sinfonias, peças de teatro…
Mas a alegoria não se encerra por aí… Um grande amigo de Edison, Lorde Ewald, lhe faz uma pequena visita que possui, na verdade, o funesto intento de uma despedida. O Lorde, anos antes, havia salvo a vida de Thomas Edson, em uma estrada qualquer e naquela noite estava disposto a tirar a própria vida. Adivinhem?! Sim, por desgosto amoroso… A moça em questão era linda, meiga, carinhosa e, de certa forma, até amava o Lorde. No entanto, um único defeito fazia com que todo o amor deste romântico nobre se esvanecesse de forma tão brutal a ponto de levá-lo ao suicídio: ela tinha pensamentos Modernistas, gostava de dinheiro, de jóias, de ser idolatrada – queria ser uma ’star’. Não tinha o espírito poético e melancólico que o Lorde julgava fundamental em uma companheira. Por isso, pobre coitado, iria morrer.
Por essas, e muito por concordar com os pensamento do nobre, Thomas Edison lhe oferece o seu mais ambicioso invento, que seria capaz de lhe devolver o amor e a alegria. Ele faria uma jovem andróide, fisicamente igual a original amada, mas perfeita também internamente – ela seria perfeita, segundo as noções do jovem nobre…
Diz-se que o verdadeiro Thomas Edison, ao ficar sabendo do livro, haveria comentado: “Este homem é maior do que eu. Eu posso apenas inventar. Ele cria”. Enfim, um verdadeiro clássico, digno de merecer o título de predecessor da ficção cientíca.
Um novo vizinho
Outubro 31, 2007
Como era deselegante não ver nada com tantas coisas para serem vistas, o senhor Juarroz ficava em casa, à janela, a ver as coisas do mundo.
Como era possível dentro de casa ouvir o silêncio, o senhor Juarroz abria a janela para entrarem ruídos, pois, no fundo, detestava o silêncio.
Como as mãos eram, acima de tudo, máquinas de tocar nas coisas, o senhor Juarroz, quando ficava em casa em frente à janela aberta, gostava de encostar a sua mão esquerda ao vidro.
Como uma das características mais entusiasmantes do ser humano era a capacidade de cheirar e saborear, o senhor Juarroz, quando ficava em casa com a janela aberta para ver e ouvir, com a mão direita encostada ao vidro para tocar, gostava ainda de beber um café bem quente e de cheiro intenso.
Como gostava muito de pensar o senhor Juarroz, quando ficava em casa, com a janela aberta, e com a mão esquerda encostada ao vidro, a beber um café quente, perdia-se nos seus pensamentos e, assim, quando a sua esposa lhe perguntava o que vira e ouvira da janela, o senhor Juarroz não sabia o que responder porque não se lembrava de nada. E apenas uma chávena de café vazia provava algo: ele bebera, de fato, o café.
O senhor Juarroz pensava muitas vezes que o mundo seria mais físico se as coisas vistas e ouvidas também deixassem, no fim, uma chávena de café vazia, de modo a provar à mulher que não perdia tempo, como ela o acusava. Mas depois de pensar nada se alterou, pois os pensamentos também não deixam provas. Apenas o café, apenas o café – murmurava”.

O senhor Juarroz
Gonçalo M. Tavares
PS: O Sr. Juarroz é o novo vizinho dO Bairro.
Essa coleção é viciante, Marcia…
…conto!
Outubro 30, 2007
Em sua laboriosa estultícia, pôs fogo na memória: as cartas eram consumidas pelas pequenas chamas”…
E hoje…
Outubro 29, 2007
Em Santa Maria…
Outubro 26, 2007
Comunicamos que seu trabalho Aspectos da Narrativa Jornalística na Web Participativa: Os interagentes e a Produção Jornalística em Weblogs foi aceito para apresentação no III SEMINÁRIO INTERNACIONAL DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO”.
Ok, nos vamos para Santa Maria, então…
Super power-points, organizem-se!
Blog-laws
Outubro 25, 2007
Quer saber? Blogueiro tem que pagar imposto. Tem que ser criminalmente responsabilizado pelo que posta – melhor, tem que ter jornalista responsável… Não tá publicando? Não quer informar? Então tem que fazer isso de acordo com a lei: tem que se registrar como blogueiro, tem que pagar salário pra um profissional credível e tem que pagar imposto, sim. Que isso, em que mundo nós vivemos? Agora pode tudo, é!?
Pois é isso que o governo italiano está tentando, acreditem… Sim: aprovado no Conselho de Ministros (no dia 12/Out) e esperando aprovação do Parlamento italiano, o texto da lei sobre blogs está gerando, é claro, polêmica – tanto na Italia, como na Blogolândia.
Segundo esta matéria no la Repubblica.it, o projeto de lei exigiria dos blogueiros um registro nacional e a manutenção de um jornalista, como editor responsável pelo conteúdo postado; ah, e também obrigaria os donos de blogs ao pagamento de imposto e à penas de prisão para os casos de publicação de conteúdos considerados difamatórios -conforme legislação italiana.
O autor do projeto, o subsecretário da presidencia Ricardo Levi disse que o objetivo da lei não é o de atingir os blogs pessoais ou amadores e nem é simplesmente distiguir entre blogs privados e públicos – serão as autoridades de comunicação italianas que definirão quais os blogs que deverão fazer o registro.
Obviamente, os blogueiros italianos já têm se manifestado: vão mudar os seus blogs de servidores, portanto de países, portando de mordaças legais.
Interessante, não?! No Brasil, a saga legal envolvendo os blogs começou há alguns anos, quando o blog “Imprensa Marrom” foi processado por declarações feitas por um leitor/comentarista sobre determinada pessoa citada pelo blogueiro. O caso polêmico ainda está sendo julgado: o blogueiro havia perdido em primeira instância e estava recorrendo. Na sentença em primeira instância, o blog e os respectivos comentários foram enquadrados na Lei de Imprensa, oras pois!
Os italianos parecem que estão querendo ganhar a competição de “leis esdrúxulas”…
Santa paciência.
Traiçoeiro mundo és…
Outubro 24, 2007
…acho que lemos romances porque nos dão a confortável sensação de viver em mundos nos quais a noção de verdade é indiscutível, enquanto o mundo real parece um lugar mais traiçoeiro”…
Umberto Eco
Seis passeios pelos bosques da ficção
Microcontando…
Outubro 23, 2007
Inesperado, chegou sem avisar – o Circunlóquio”…
da série, faça um microconto prolixo!
Coisas de Amazon
Outubro 22, 2007
Se você estivesse no Amazon, procurando pelo livro do Landow (Hypertext 3.0), o encontraria à disposição pela merreca de US$51,00… Essas barbadas não chegam aqui – e nem as ‘mais baratas’ traduções!
Ainda: o ótimo amigo Amazon te sugeriria a ‘barbada do dia’ – o Better Together:

Mas, melhor ainda se você procurasse saber qual era o indicado, no caso Writing Space, do David Bolter…

Não é o máximo?! A mesma oferta com preços diferentes… No Brasil, o menor preço anunciado é o que pode ser cobrado, então… Parece que é o dia de sorte de alguém que tenha US$57,88 pra pagar por eles! Ôh, tristeza…
…
Outubro 22, 2007
Estranhamente assim ela mudava seus gostos. De manhã preferia o rosa, à noite o vinho, e de madrugada ainda era possível gostar do lilás. Do roxo. A cor da morte. Do hematoma, da cura. Aos sábados ela sorria. Mas nem sempre. Todo mundo à sua volta já parecia decantado. Não era necessária a sua intervenção. Nem etílica. Trocou a cerveja pelo uísque num piscar de olhos. Em outros, os deixou pela soda com rodela de limão, mãos limpas, óculos assíduos. Era multifaces. Era uma multidão. No entanto, estranho o seu perfume. Era sempre o mesmo. Mesmo odor de atração, imã, magneto, uma rodela de batata-doce puxando toda a acidez do mundo. E ela mentia. Dizia estar tudo bem. Era por fora mais ela do que se fosse outro alguém. Qualquer outro. De verdade. Desses que têm sempre a mesma opinião, e se coçam sempre com o mesmo trejeito”…
Por Ana Peluso




