… nas palavras de outro alguém, perdido pelo mundo, andando por aí!

De repente um frio estranho na espinha. Sabe-se que esse frio não é de forma alguma ruim. Apenas, digamos, diferente das costumeiras sensações. De repente um ponto final e uma página em branco ansiosa por tinta. De repente pular do oitavo andar é só música boba, porque a gente cai e levanta o tempo todo e sempre espera que da próxima vez o chão seja complacente com o nosso tombo.

 

(…)

 

Talvez você cresça ou, como eu, continue com 1,57, o que não é tão mau assim. E talvez você cresça de verdade e tenha um cargo decente, na empresa que você sempre quis, com boas cifras no banco e uma família feliz comendo Doriana no pão quentinho [algumas pessoas dão o nome disso de crescer e pode ser que sim, talvez seja bom]. Mas talvez – e devo dizer que isso é ótimo – você fique como eu. Que cresceu, porque acabou de subir em uma pilha de livros cuidadosamente dispostos no chão para pegar a chupeta que seu filho jogou no mais alto andar da prateleira. Crescer porque ouviu um disco antigo e não tinha prestado atenção na letra antes e agora ela faz tanto sentido. Ou porque não conseguia sair do difícil capitulo de um livro e entende, mais tarde, que aquele é só mais um capitulo e que o importante é navegar na viagem que é ler.

 

 

 

De repente, assim como eu, você perceba que cresceu, porque a pessoa que você ama procura receitas divinas na internet e cozinha só para você, mesmo que essas receitas divinas sejam apenas uma variação muito interessante de carnes e batatas.

 

 

Talvez essa pessoa queira ir mais cedo para a cama no domingo, porque tem um trabalho difícil na segunda ou só porque quer ler o romance novo do Hornby. Mas talvez ela se divirta em te ver rindo na sala com as vídeo-cassetadas e puxe uma almofada para perto, se ajeite no sofá e entre seus braços e em meio as suas gargalhadas e os palavrões do Faustão, pegue no sono até que você o faça levantar para escovar os dentes.

 

 

 

Talvez você continue onde está, lendo a revista Bravo para saber das novidades cosmopolitas, fazendo cara de interessante após ler a coluna do Tom Zé [eu gosto do Tom Zé]. Mas talvez você deixe de ser espectador disso tudo e queira fazer parte, queira estar lá. Queira, de certa forma, mesmo que de um jeito meio desengonçado e apressado, crescer. Nem que seja crescer nos números dos km’s rodados nas rodovias que ligam a província à metrópole, nem que seja para diminuir o tamanho das fibras óticas. E se tudo isso acontecer acompanhado da pessoa que o completa, alguém tão idiota quanto você… Bem, aí você pode dizer para a sua mãe que “um amor e uma cabana” ainda dão certo sim e o resto que se dane…

… havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles.

Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração.

Como eles admiravam estarem juntos!

Até que tudo se transformou em não.
Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros.
O cerimonial das palavras desacertadas.

Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira ela – que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso.

Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram.

Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

Resgates do IMA…

Setembro 2, 2006

O Instituto Mário Alves de Pelotas foi contemplado em seu projeto “Organização e disponibilização do acervo dos sindicatos dos Bancários e da Alimentação“, sob a coordenação do ex-Bolsista do NDH, “proféssor” Mário Augusto San Segundo ) e do professor da UCPel, Renato Della Vechia.

O projeto foi um dos 22 contemplados no concurso Memória do Trabalho no Brasil, instituído pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC), da Fundação Getúlio Vargas e contará com a orientação técnica da professora Beatriz Ana Loner.